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quarta-feira, 13 de maio de 2015

Preto Velho (para Pai João de Aruanda)

Preto velho na senzala, sente fome, sente sede
Sente a ferida nas costas, mas sabe que há de sarar
E dorme no chão pois não tem rede
Mas tem fé, que Pai Oxalá vai ajudar

Preto velho tá rindo à toa
Das coisas ele sabe e segue em frente
Negro Velho que sempre perdoa
Que dá gargalhadas e mostra os dentes

Preto velho é velho assanhado
Brinca com as negas e dá de correr
Mas ele já tá cansado
Se finge de morto pro feitor não bater

Preto velho não sabe ler
Mas da vida ele entende e é professor
Preto velho não sabe escrever
Mas da alma ele cuida e é doutor

Preto velho só sofre com os filhos na Terra
Que esquecem que a vida é formosa igual flor
Pois preferem o ódio, a inveja e a guerra
Em vez da paz, da caridade e do amor

Na Aruanda uma luz já brilhou
E preto velho já vai partir
Com a benção de Zambi e do Nosso Senhor
Nosso pai velho canta pra subir

Mas se quiser que ele volte é só bater palmas
Esse velho gosta mesmo é de trabalhar
Salve a linha das Santas Almas
Salve meu pai, que seu burro tá pronto pra saravá!

E humildemente lhe roga
Hoje e sempre
A sua benção e sua proteção.

Salvem os pretos e pretas velhas!



terça-feira, 3 de março de 2015

O sorriso de Deus

"Os pretos velhos velhos são as rosas mais bonitas
Violetas e orquídeas
Quando vêm nesse congá

Os pretos velhos quando vêm pra trabalhar
Vêm trazendo muito amor
pros filhos seus

Os pretos velhos vêm na força de Oxalá
Os pretos velhos são o sorriso de Deus"

Os longos cabelos cobertos de neve, presos numa rabo de cabelo, contrastam com a negritude de sua pele e denunciam a sabedoria do tempo escondida em sua alma.

As rugas e marcas de expressão espalhadas em seu rosto me remetem a um jardim de margaridas brancas, que ao serem osculadas pelo vento, produzem a mais formosa melodia.

Seu olhar foca a linha do horizonte. O encontro do céu azul de Oxalá com o mar de Yemanjá. O mais belo ponto de força da natureza, que não existe.É somente uma ilusão de ótica. Ao contrário da simpática preta velha parada na minha frente, na beira do mar, imortalizada pelo tempo.

Talvez ela esteja fazendo uma prece. Ou pensando em seu falecido marido. Talvez ela esteja lembrando de cada um dos momentos felizes em que viveu em sua jornada terrena. Pode ser que ela esteja decidindo se vai comer um biscoito Globo ou uma empadinha de queijo. Ou no que vai preparar para o jantar. Quem sabe ela não está apenas lembrando de um cachorrinho de estimação que a deixou há trinta anos atrás? 

Vai saber...

Ela dá três passos em direção ao mar. A primeira onda vem lhe saudar. A segunda lhe beija os pés e tornozelos. As demais querem apenas com ela brincar.

Ela se curva, molha suas mãos e faz o sinal da cruz. Várias vezes. Ela estende os braços em direção ao céu, com as palmas das mãos viradas para cima, como quem agradece por alguma coisa, talvez por aquele momento, talvez por alguma graça, talvez por...não. Ela apenas agradece. Pela vida.

As ondas batem em suas pernas finas, enrugadas e firmes, molha sua saia e ela...ri. Uma, duas, três, setenta vezes.

Quarenta minutos já havia se passado e a vovozinha lá, brincando e conversando com as ondas, se sentindo parte integrante daquele quadro de areia, mar, espuma e conchas.

Ela lembra de todas as coisas que as ondas lhe trouxeram: alegrias, tristezas, amores.
Ela lembra de todas as coisas que as ondas lhe levaram: alegrias, tristezas, amores.

Ela sabe que as ondas não cessam de ir e vir. E aguarda as próximas calmarias e ressacas. Porque ela é uma preta velha e sabe que a vida é assim.

Ela não se desespera mais com as tempestades da vida, pois usa um agasalho impermeável: o agasalho da fé. Ela sabe que tudo sempre passa, que uma hora o sol se afasta, que as nuvens choram, afinal as flores tem que brotar. Mas o sol sempre volta.

Quando ela finalmente sai do mar, um sorriso lhe enfeita a face. Mas esse sorriso não é dela. Ela gentilmente empresta o seu rosto para o Criador.

Porque esse sorriso...é o sorriso de Deus.

 
  

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Oração

Pai João costuma dizer que oração não é prece decorada. Não precisa de palavras bonitadas, nem de expressões difíceis de se entender. Porque oração não é pra sair do camutuê (cabeça). Oração é sentimento sincero, que sai do coraçãozado da alma. "Como tudo nesse mundo de meu Deus, é só fazer o simples, fio. Com amor"

A historinha a seguir é de autoria desconhecida, e quando eu li não pude deixar lembrar das palavras do pai velho. Uma oração muito simples. Mas com muito amor.

OI JESUS, EU SOU O ZÉ, VIM TE VISITAR!

Todos os dias, ao meio-dia, um pobre velho entrava na igreja e poucos minutos depois saía.
Um dia o sacristão lhe perguntou o que fazia, pois havia objetos de valor  na igreja.
- Venho rezar, respondeu o velho.

Mas é estranho, disse o sacristão, que você consiga rezar tão depressa!
Bem, retrucou o velho, eu não sei recitar aquelas orações compridas, mas todos os dias, ao meio-dia, eu entro na igreja e só falo:

OI JESUS, EU SOU O ZÉ, VIM TE VISITAR!

Num minuto já estou de saída. É só uma oraçãozinha, mas tenho certeza que Ele me ouve.

Alguns dias depois, o Zé sofreu um acidente e foi internado num hospital. Na enfermaria, passou a exercer uma influência sobre todos.
Os doentes mais tristes se tornaram alegres, muitas risadas passaram a ser ouvidas.

- Zé, disse-lhe a enfermeira, os outros doentes dizem que você está sempre tão alegre.

-Sim, estou sempre alegre, é por causa da visita que recebo todos os dias, e me faz feliz.

A enfermeira ficou atônica. Já havia notado a cadeira vazia encostada na cama do Zé.
O Zé era um cara solitário, sem ninguém. Que visita? Que hora?

- Todos os dias, respondeu o Zé com um brilho nos olhos, ele vem sentar ao pé da cama, e quando olho para ele, ele sorri e diz:

OI ZÉ, EU SOU JESUS, VIM TE VISITAR!       
 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

menina flor



dos versos de um tolo poeta
nasce uma menina flor
bela e majestosa
com pétalas de amor


cabelos ao vento
sorriso infantil
estrelinha que brilha
no céu azul anil


filha menina
que vem ensinar
sobre a vida
a um pai que sequer sabe rimar


e lá vai a flor de menina
em seu bailar formoso


pelas margens do rio
à beira do mar


na força da cachoeira
o povo das águas vem saudar


um pai poeta e sua menina flor
juntos com a banda de lá


semeando a paz e o amor
sob a bandeira de Oxalá


voa, pombinha branca

Parabéns, minha filha.
Que mamãe Yemanjá te proteja hoje e sempre.
Te amo.




 



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A luz do amor

"Je suis Charlie." De tempos em tempos acompanhamos pelo noticiário a Jihad (Guerra Santa), atentados de grupos fundamentalistas islâmicos em diversos países do planeta, bem como a eterna disputa entre muçulmanos e judeus, envolvendo discussões sobre a quem pertence Jerusalém. Cristãos, Judeus e Muçulmanos, lutando, matando e trucidando ao longo das décadas em nome de Deus, Javé e Allá.

Impossível definir pelo curso da história quem foi o mais cruel. Crueldade que se agrava na medida em que cada um possui o seu livro sagrado (Evangelho, Torá e Alcorão), que se seguissem em espírito a mensagem de amor ao próximo contida em cada um deles, seriam, sob muitos aspectos, bem diferentes na prática de seus atos.

As demandas religiosas não param por aí. Aqui em nosso país, "Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho" (título de um livro ditado pelo espírito de Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. FEB, que faz uma síntese da História do Brasil, e dos trabalhos espirituais de Jesus e seus colaboradores para transformar o Brasil num centro de luz para todo o planeta), estamos cansados de presenciar a discriminação religiosa contra as religiões de origem africana.

Diante deste quadro, surge a pergunta: "Qual é a melhor religião?" Bem, melhor tocar a bola...

"Que a paz de Jesus encontre morada em todos os coraçõezados de meus fios.

Boa pergunta. Será que quando a gente morre alguém pergunta pra nóis qual o nosso time de futebol, nossa profissão, nossa raça? E nossa religião? Será que isso importa?

Religião é caminho. E todos os caminhos que levam a Deus passam por Nosso Sinhô.

Jesus em sua infinita misericórdia não diferencia umbandistas, espíritas, católicos, evangélicos, islâmicos, judeus... As religiões são espécies de um único gênero: o amor.

O objetivo de uma religião é o amor. Pra que os fiinhos de Deus se tornem pessoas melhores.

Se o fio tiver dúvida sobre qual religião seguir, siga a religião do amor. Seus adeptos semeiam bondade, brandura, tolerância e paciência. Seu fundamento é a Fé. Sua busca é pela paz interior e pela consciência tranquila. Seu ritual é a prática da caridade, o amor a si mesmo e ao próximo.

Assim, o fio estará irradiando uma luz que vem de dentro e se espalhará por meio de ações e palavras, de sentimentos e pensamentos.

Um fio sem amor é escravo de suas imperfeições. Semeando o amor, o fios estarão regando a sementinha divina que existe dentro de cada um, porque todos somos fiinhos de Deus, de Allá ou de qualquer outro nomado que vosmicês queiram dar ao Pai Maior.

Não é a religião que faz o fio feliz, mas sim o amor, a vida em sintonia com a prática do bem. A meta é o aperfeiçoamento moral e espiritual. A meta é "ser melhor".

Porque quando a gente morre meus fios....o que importa é a luz que irradiamos. 

A luz do amor.

Um abraço de bom coração, desse preto chamado João, um trabaiador de Aruanda e aprendiz de Cristo Jesus."  

Pai João costuma dizer que aqui na Terra (na vida material) deveríamos ter menos "ismos" (cristianismo, judaísmo, islamismo, budismo, etc...) e mais, muito mais amor.
   




      

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O aprendiz da vida e o burro

Amigo leitor,

Ler sempre foi uma atividade normal em minha vida, desde os gibis da Turma da Mônica, dos heróis da Marvel e Pato Donald, passando pelos livros da Coleção Vaga Lume e evoluindo para Agatha Christie, Sidney Sheldon e Ken Follet. 

Com o passar dos anos, chegou a poesia e tomou conta das minhas horas vagas, quando Mário Quintana, Manoel de Barros, Cecília Meirelles e Rubem Alves passaram a me fazer companhia. E como a vida pede risadas, nunca dispensei as crônicas do Veríssimo.

Num dado momento, veio a necessidade de escrever. Nos anos de 2012 e 2013, produzi muitos textos, alternando crônicas e poemas, muitos publicados no meu blog "No Alto da Montanha", uma brincadeira, onde compartilho até hoje, com amigos e familiares, meus "devaneios literários".

Escrever se tornou, então, uma terapia saudável. 

A literatura espírita, contudo, sempre ocupou o seu lugar nas prateleiras da minha estante. Tudo começou com "Nosso Lar", presente de aniversário que ganhei de meu pai quando completei 15 anos. 

Depois de vários livros espíritas e umbandistas, eis que surge a intuição de escrever também sobre espiritualismo. Intuição esta que vem de um velhinho, "negro feito a noite sem estrela", que me acompanha, me guia e me protege há mais tempo do que imagino.

Resisti a ideia o quanto pude. Não me sentia e nem me sinto com capacidade para tal tarefa. Depois de muito discutirmos o assunto (sim, nós brigamos muito), resolvi, como sempre, ceder. Ele deu sua gargalhada habitual e disse: "Vai ser fácil, viu fio, é só fazer o simples, num carece de complicar. Nego véio ajuda."

Então tá. Espero que ele ajude mesmo. Afinal, se ele costuma dizer que é um "eterno aprendiz da vida", eu sou só o burro...

E que Oxalá nos abençoe a todos!